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Capítulo 1 Um Rato

Um Rato. Precisou de apenas um Rato para virar a vida de Nellie Castilho de ponta cabeça. Mas não um Rato qualquer. Este media mais de um metro e oitenta, tinha cabelos pretos como azeviche, ondulados e selvagens, e possuía olhos tão escuros que pareciam um mar noturno, chamando-a a mergulhar neles. Um Rato que roubou não apenas seu amor, mas todas as suas economias... Embora Nellie nem sonhasse que isso aconteceria meses antes, em uma – até então – comum tarde de terça-feira, quando equilibrava uma bandeja repleta de pratos e copos entre as mesas do Bar e Restaurante Escaravelho. - Bisteca no ponto como o senhor pediu - disse educadamente, depositando o prato diante do cliente, que esperava com o guardanapo preso no colarinho. Tentou se afastar, mas ele segurou a barra de sua camisa. - Cada dia que passa fica mais bonita, Nellie - comentou, os olhos sedentos percorrendo o corpo dela. - Uma flor doce no meio deste fim de mundo. Segurando a vontade de estapear a mão dele, manteve o sorriso profissional. - O senhor veio para comer ou para fazer poesia? - Vim para ver você. - Ele inclinou-se para frente, seguindo com aquele olhar que causava asco na jovem. - E para repetir o convite. Vamos jantar hoje? Posso te levar a um restaurante chique na capital... - Sou dona de um restaurante. E não saio com clientes - respondeu secamente, virando-se para atender outra mesa, mas a mão persistiu e agarrou seu pulso com força. - Não seja difícil, garota. Sou um homem paciente, mas tenho limites. Nellie sentiu o coração acelerar de raiva, mas manteve a compostura. - Olavo, solte meu braço! - Deixa a menina, Olavo - um cliente na mesa ao lado tentou intervir, mas sua voz saiu baixa, sem muito empenho. - Cuide da sua vida e não meta o nariz nos meus negócios! - Olavo disparou, sem desviar os olhos de Nellie. O homem baixou a cabeça e voltou a comer, derrotado. - Não sou um negócio, menos ainda seu - Nellie retrucou, puxando o braço com brusquidão. Olavo finalmente a soltou, mas não sem antes deslizar o polegar sobre a pele nua de seu antebraço. - Em breve será minha potranca. - Potranca é a pu... - Nellie, o frango com quiabo tá divino - uma mulher interveio em desespero. Respirando fundo, Nellie se afastou sorrindo para a cliente. - Obrigada! O cozinheiro ficará feliz com seu feedback. Vendo a jovem fugir novamente as suas investidas, o fazendeiro sorriu confiante. Quanto mais rebelde, mais doce seria quando a domasse. Nellie sentia o peso do olhar de Olavo em suas costas enquanto se movia entre as mesas, e não precisava virar-se para saber que o nojento a devorava com os olhos. Seguiu para o balcão, onde Lurdes, sua amiga e companheira de trabalho, servia aguardente para dois trabalhadores. - Ele nunca vai desistir - a amiga alertou baixinho. - E eu nunca vou aceitar aquele porco - revidou, fazendo um dos trabalhadores engasgar com a bebida. Os homens se afastaram apavorados, temendo que Olavo ouvisse e colocasse na conta deles o afronte da jovem. Notando a situação, as duas riram. Foi quando a gritaria do lado de fora começou. Altos e estridentes demais para serem ignorados. - O que está acontecendo lá fora? - questionou movendo a cabeça em direção à porta, assim como os demais no estabelecimento. Uma voz feminina - aguda, estridente, inconfundível - cortava o ar com acusações febris. - LADRÃO! MENDIGO IMUNDO! - É a Sônia - alguém na mesa do fundo comentou, se levantando. - Tá gritando igual uma galinha esganada. - E o filho dela - acrescentou outro olhando pela janela. - Tão cercando alguém na frente da mercearia. Nellie largou a bandeja sobre o balcão. - Lurdes, cuida do bar que vou ver o que tá acontecendo. - Nellie, espera! - Lurdes chamou, mas Nellie já estava do lado de fora. A rua estava um caos, com uma pequena multidão se aglomerando como abelhas enraivecidas em volta de três pessoas. Ao vencer a muralha de pessoas, os olhos de Nellie se arregalaram. Um home maltrapilho, sujo e visivelmente ferido estava caído no chão. Em pé, acima dele, a dona da mercearia brandia uma vassoura como se fosse uma espada. - LADRÃO! - repetia desferindo golpes no homem caído. - RATO IMUNDO DOS INFERNOS! Ao lado dela, o filho mais novo também golpeava a figura caída no chão, só que com chutes. - Some daqui, rato imundo! - ele mandava, embora, com os golpes sucessivos, não desse a menor chance do pobre homem levantar. - Volta pro buraco de onde saiu! Chocada por ninguém intervir, observou as roupas sujas, rasgadas, expondo a pele curtida pelo sol, coberta de arranhões, sangue e terra seca. Os pés estavam descalços, em carne viva, as solas sangrando. O cabelo preto como azeviche, estava emaranhado, repleto de folhagem e lama que, junto da barba em igual estado, escondia as feições do homem que engatinhava para fugir dos golpes, um braço pendendo em um ângulo estranho. - PEGA ELE, FILHO! - Sônia ordenou, e o filho obedeceu, avançando com os punhos cerrados. - Acha que pode roubar nossa mercearia e sair ileso? - ele berrou, e seu punho voou em direção ao rosto do mendigo. O golpe não atingiu o alvo. Inesperadamente o homem desviou. Seu movimento foi tão inesperado que Paulo desequilibrou e caiu. - OLHEM O QUE ESSE RATO FEZ COM MEU FILHO! - Sônia bradou erguendo alto a vassoura. - Eu... fo... me... - a voz do homem saiu rouca, estranha, como se custasse um esforço sobre-humano. - Fome... - balbuciava se encolhendo, o braço bom se erguendo contra o golpe que se anunciava. Mas o golpe não o alcançou. Uma mão pequena segurou o pulso de sua algoz impedindo a nova agressão. - O que pensa que está fazendo, Sônia? - Nellie questionou, os olhos âmbar flamejando ao pegar a vassoura e a jogar longe. A madeira bateu na parede da mercearia com um estalo seco, atraindo os olhares por um segundo, antes de se voltarem para a figura mignon desafiando a merceeira vinte centímetro maior. - Esse homem roubou meus pães! - Sônia esganiçou, o rosto vermelho e as veias do pescoço saltando. - Ele é um ladrão! - Chama a polícia então - Nellie revidou soltando o pulso de Sônia com brusquidão. - Vamos ver o que o delegado acha de vocês espancando um homem que mal consegue ficar em pé. - Tá defendendo ladrão, agora? - O filho de Sônia perguntou incrédulo, levantando e sacudindo a poeira da calça. - Olha pra ele, Nellie! Deve ser um fugitivo ou pior! - Pior o quê? - Nellie virou-se para encará-lo, a fúria nos olhos âmbar fazendo o rapaz recuar. - Olhe pro pobre homem, pros pés em carne viva, o estado das roupas e o ouça o que ele diz. Está claramente exausto, com fome, e querem espancá-lo por causa de pão? Isso é covardia. - Levou a mão ao bolso da calça jeans, pegando seu celular. - Quanto foi? Me diz que te faço o ¹pix. - Vai proteger esse... - Sônia engoliu em seco, olhando com mais atenção o homem caído, notando o que foi apontado, mas não querendo recuar. Não na frente de quase toda a cidade. - Vou chamar o delegado - anunciou, abrindo caminho na multidão em direção à delegacia, seguida pelo filho. As pessoas começaram a se afastar, embora o olhar permanecesse cravado no homem caído e em sua inesperada protetora. Nellie se agachou em frente ao homem maltrapilho, que permanecia de joelho, os olhos escuros presos nela. Sorriu. - Tá tudo bem agora. Ninguém vai te machucar mais. Pode confiar em mim. Estendeu a mão. - Sou Nellie. Qual seu nome? - Eu... - a voz falhou, e ele engoliu em seco, os olhos nunca se desviando dos dela. Quando continuou, as palavras saíram roucas, arrastadas. - Eu... Eu... Nellie franziu a testa e abriu a boca para voltar a questionar, mas, inesperadamente, o homem tombou para frente, caindo pesadamente nos braços dela. ~x~ ¹ Pix: Meio de pagamento instantâneo brasileiro criado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2020, em que os recursos são transferidos entre contas em poucos segundos, a qualquer hora ou dia.

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Lista de capítulos

30 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Um Rato
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Um Mendigo
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Um Andarilho

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