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Capítulo 2 Um Mendigo

O peso a desequilibrou, fazendo-a cair de bunda no asfalto quente. O cheiro de suor, terra e sangue invadiu suas narinas, mas ela aguentou a vontade de empurra-lo ao sentir o calor emanando dele. - Meu Deus...! - sussurrou, passando a mão pelo cabelo emaranhado do homem. A testa dele estava quente, febril. - Rápido! Alguém me ajuda! Logo obteve ajuda, respirando aliviada quando, Bento, o cozinheiro do restaurante e um cliente tentaram erguer o homem do chão. - O que aconteceu? - Bento perguntou, puxando o corpo desacordado de sob a amiga e patroa. - Quem é esse cara? - Não sei. Ele desmaiou antes de dizer - Nellie respondeu, avaliando o rosto desacordado do mendigo. Barba cerrada, pele suja, cabelo negro e emaranhado em folhagem e algo gosmento e escuro. Seria sangue? - Está ferido e ardendo de febre... - Deixem esse vagabundo aí - a voz de Olavo chegou até Nellie, que se voltou para o fazendeiro parado na porta do bar, os polegares afundados no cinto de couro e o olhar de desprezo fixo no homem desacordado. - Chamarei o delegado pra se livrar desse lixo. - Ele precisa de ajuda - Nellie revidou indignada. - É um ser humano com fome e doente. Mas você é incapaz de empatia pelo visto. O fazendeiro deu um passo à frente, o rosto endurecendo como concreto. - Não seja teimosa, potranca. Esse homem pode ser perigoso. - Primeiro: Meu nome é Nellie. Segundo: Ele está desmaiado e doente - Nellie rebateu, sentindo a respiração irregular do mendigo e a pele em chamas. - Ele pode morrer. - Que morra então! Ela sentiu as palavras dele como um tapa, o nojo subiu tão forte que teve que engolir em seco para superar o gosto amargo que se formou na boca. - Você não é homem, é um verme. - Nellie não esperou pela reação do fazendeiro, se voltando para Bento concluiu: - Temos que levá-lo até o posto. - Ele é muito pesado, não vai dar... - Bento comentou suando só em segurar o mendigo e respirar. - E fede como o cão - o cliente remendou, abanando o nariz e deixando todo o esforço com o cozinheiro. - Olavo tem razão. Esse cara pode ser um bandido. Tem vindo muitos pra esses lados por causa da construção dos granfinos - emendou ao reparar no olhar de Olavo sobre eles. - Vai dar, sim - Nellie insistiu, ignorando a opinião plantada por Olavo. Porém, percebendo a dificuldade de sustentar o peso do mendigo, e estando longe do posto, indicou em direção ao Escaravelho: - Vamos colocá-lo no meu fusquinha, assim fica mais fácil. O doutor precisa ver esses ferimentos - Estou mandando deixarem esse lixo na rua - Olavo bradou pegando o celular, os olhos castanhos se estreitando em uma advertência silenciosa. - Mandarei o delegado cuidar do resto. - Olavo, isso não é da sua conta. - Os olhos de Nellie se estreitaram. - A não ser que você tenha alguma coisa a ver com o estado desse homem? O fazendeiro deu um passo atrás, a face vermelha. - Claro que não! - Então cale a boca e me deixe cuidar do pobre homem - exigiu, comandando: - Vamos! O cliente largou o homem, Bento se manteve do lado de Nellie. - Ele tá pesado e fedido - Bento murmurou, enganchando os braços sob as axilas do homem, enquanto Nellie segurava as pernas. - E ninguém vai nos ajudar... - salientou. - Aquele imbecil só perturba a minha vida - Nellie resmungou de volta, levando com esforço o mendigo até seu carro, um fusca azul-claro estacionado em frente ao Bar e Restaurante Escaravelho. Colocaram ele no banco de trás e Nellie se preparava para entrar ao lado dele quando seu ajudante informou: - Não vou com você. - Como assim não vai? - Olhou descrente para o cozinheiro. - Preciso de ajuda para carregar ele quando chegarmos. - Olha, Nellie... Isso é loucura - ele respondeu. - Esse cara claramente é um problema, dos grandes, e fede pior que um gambá morto. - Você nunca sentiu o cheiro de um gambá vivo, quem dirá morto - retrucou aborrecida. - Mas se sentisse seria igual ao fedor desse cara - retrucou encobrindo o nariz. - Tenho que cuidar da cozinha do Escaravelho... Além disso, o Olavo chamou o delegado... - Que importa o Olavo? O homem está morrendo! - A indignação queimou em sua garganta. - Olha pra esse cara, Nellie. Tá todo fodido, fedendo, cheio de sangue. Sequer sabemos quem ele é! Pode ser um assassino, um fugitivo. Nellie sentiu a raiva subir como fogo do peito até os olhos. - Ah, quer saber? Pode fugir como todo mundo faz quando aquele verme estala os dedos - disse sem esconder a fúria e desprezo. - Dou conta sozinha. O rapaz abriu a boca para dizer algo, mas o olhar de Nellie o fez calar. Encolheu os ombros e se afastou. Bento abriu a boca, mas o olhar pesado de Nellie o calou. Encolhendo os ombros, se afastou, desaparecendo dentro do Escaravelho. - Seja sensata, potranca - Olavo pediu se aproximando dela quando seguiu para o banco de motorista. - O que sua mãe vai pensar disso? - Não meta minha mãe nisso - exigiu fechando a porta. - E me deixe em paz. Fechou a janela para ignorar de vez o fazendeiro. O que logo se mostrou um erro. Suas narinas arderam e os olhos lacrimejaram. Contra vontade teve de concordar que o desconhecido fedia como um animal morto depois de rolar na merda. Assim que pegou distância do fazendeiro, abriu a janela e inspirou fundo o ar de fora, contando os segundo para chegar ao posto de saúde, tanto para ajudar o pobre homem quanto para salvar seu olfato. ~*~ Conforme o fusca se afastava, os primeiros murmúrios de fofoca pipocavam e olhos ferozes seguiam o veículo até perdê-lo de vista. Olavo Guedes, tamborilando os dedos no cinto, não conseguia aguentar a insatisfação com a rebeldia e língua afiada da mulher que desejava. - Vai aprender a me respeitar, potranca. Por bem ou por mal.

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Lista de capítulos

30 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Um Rato
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Um Mendigo
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Um Andarilho

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