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Capítulo 3 Um Andarilho

A viagem até o posto durou menos de vinte minutos, mas para Nellie pareceu uma eternidade. Além do odor insuportável que empesteava o ar, tornando difícil o ato de respirar, a estrada de terra era acidentada, cheia de buracos e pedras soltas. A cada solavanco, o homem gemia baixinho, e Nellie sentia o coração apertar. - Vamos, aguente firme - murmurou, tanto para si mesma quanto para o homem inconsciente. O fusca afundou bruscamente ao passar por uma vala, e o homem caiu do banco, batendo contra o chão do carro. - Droga! - Nellie freiou bruscamente, o carro derrapando na terra. Saiu do carro e abriu a porta de trás. O cheiro a atingiu como um murro, mas ela ignorou, ajoelhando-se para verificar se o homem estava bem e respirando. - Perdão - pediu, passando a mão pelo cabelo emaranhado dele. Os olhos dele se moveram sob as pálpebras fechadas, e ele ganiu baixinho uma palavra que Nellie não conseguiu entender. - O que disse? - Inclinou a cabeça, aproximando o ouvido dos lábios dele. - Água... Água... por... favor... Nellie sentiu os olhos arderem, e não era pelo cheiro. Era pelo pedido, pela súplica. Algo tão simples e tão desesperado. - Vai receber água assim que chegarmos no doutor. Aguenta mais um pouco, tá? Não houve resposta. Ele tinha desmaiado de novo. Mas o pedido de água ficou ecoando na cabeça de Nellie enquanto ela entrava de volta no carro, ligava o motor e seguia em direção ao posto de saúde. Mal estacionou em frente à porta dupla do posto de saúde e já pulava para fora, indo apressada para dentro dele. - Ajudem! - chamou, atraindo os olhares de três pessoas aguardando na recepção. - Preciso de ajuda! A enfermeira na recepção ergueu o olhar do computador, franzido o rosto diante do desespero da dona do Escaravelho. - Nellie? O que aconteceu? - Tem um homem no meu carro... Muito ferido... Preciso de ajuda para colocá-lo numa maca... - pediu esbaforida. - Quem é? - Não tenho tempo para discussões! - disse fazendo a mulher recuar em choque pela resposta seca. - Ele está sangrando, tem uma ferida na cabeça e não sei quantas mais pelo corpo. Se a senhora não vai me ajudar, então me arrume uma maca e eu mesma vou carregá-lo. A mulher enfim se moveu, chamando um colega, que trouxe a maca para se encaminharem até o fusca. O cheiro precedeu a chegada deles no fusca. Suor, terra, matéria orgânica em decomposição, o odor acre de sangue fazendo os narizes crisparem. - De que bueiro tirou esse cara, Nellie! - Nunca vi esse sujeito na cidade - disse a atendente se recusando a ajudar na transferência. - Pelo menos sabe quem é? - Um andarilho que precisa de ajuda médica - respondeu ajudando a puxar o corpo inerte do desconhecido para fora do carro. O desconhecido gemeu quando seu corpo encontrou a superfície dura da maca, e Nellie segurou sua mão em apoio. - Vão cuidar de você - murmurou, mesmo sabendo que ele provavelmente não podia ouvi-la. - Vai ficar bem. Os olhares de choque se multiplicaram quando entraram no posto com o homem na maca, todos sussurrando entre si enquanto abanavam o rosto. - Doutor Arnaldo! - chamou o enfermeiro, e a porta da sala do único médico da cidade se abriu, revelando o homem de cabelos brancos, que olhou para a cena com olhos estreitados. - O que houve? - Esse andarilho passou mal na praça - respondeu Nellie, parada ao lado do enfermeiro guiando a maca. - Não sei quem é, mas precisa de socorro. - Leve para a sala dois. - O médico indicou seguindo com o enfermeiro para o local indicado. - Ele vai ficar bem? - perguntou preocupada. - Vamos ver - respondeu o médico entrando na sala. - Aguarde aqui. Enquanto o desconhecido era levado para o local indicado, Nellie sentou no banco largo da recepção. Como esperado, foi alvo de um questionário sobre o ocorrido. As respostas levando tanto os demais quanto ela a se perguntarem que loucura a atingiu. "Quem era aquele homem?" Não sei. "De onde tinha vindo?" Não sei. "Porque se envolveu no resgate de um completo desconhecido?" Não sei. Era óbvio, no olhar de quem estava ali e quem chegou posteriormente e se informou do ocorrido, que sua atitude tinha sido impulsiva e sem levar em consideração as consequências. Havia arranjado briga com toda a família que controlava a mercearia para defender um ladrão. Pegou o pão por fome, mas isso não mudava o fato de que roubou. E Nellie pagou pelo roubo. Certamente rodava de boca em boca sua atitude. Cidade minúscula, julgamento gigante, resumia Aramanday. Por último, tinha conseguido insultado Olavo, o mais poderoso fazendeiro da região. Disso não se arrependia. Tinha aguentado por tempo demais os desmandos e absurdos do fazendeiro, que tinham piorado desde que ele decidiu – sem levar a opinião dela em consideração - que a queria como esposa. De uma coisa tinha certeza: não podia deixar uma pessoa morrer só por ser maltrapilha. Não importava o que Olavo dissesse e nem a fofoca que se construía por sua decisão. - A construção nas terras do Olavo tem atraído muita gente esquisita - lamentou um senhor sem tirar o olhar do televisor passando as notícias do dia. - Não são mais do Olavo - a mulher ao lado dele comentou. - Ele vendeu o terreno prum pessoal podre de rico. - Continua a ser dele. Olavo disse que vai ganhar uma nota quando concluírem - o velho revidou. - E vai atrair turistas pra cidade. - Vão fazer o que aqui se dizem que lá vai ter até shopping? - Um rapaz novo, tossindo a cada golfada de ar, soltou com pouco caso, jogando no celular. - As pessoas gostam de cidade rústica. - Aqui só tem moscas - o adolescente destacou, não tirando a mão do jogo nem mesmo para poupar os demais dos respingos da tosse constante. - Deixe de leseira, muleque. E pega uma máscara pra cobrir a boca - o velho mandou encarando irritado o rapaz até ele mudar de cadeira, se afastando para tossir longe deles. - Acho que essa construção nem vai continuar depois da morte que teve uns dias atrás - uma mulher sentada ao lado de Nellie disse justificando: - Tem um povo pedindo pra pararem as obras. Dizem que não tão cuidando da segurança deles. - Encontraram o corpo do cara que caiu no precipício? - A enfermeira no balcão questionou interessada. A mulher balançou a cabeça em negativa. - Pararam as buscas. Ouvi que o delegado concluiu que ninguém sobreviveria uma semana dentro da Mata do Eçarai. O velho coçou a barba. - As onças devem tá com o bucho cheio agora. - Verdade. Pobre sujeito. Veio trabalhar e encontrou seu fim - a enfermeira concluiu apiedada. - Assim como muitos - o velho falou comentando desdenhoso: - Por isso duvido que vão parar a construção, ainda mais sendo projeto de gente graúda, cheia da grana e com Olavo de olho. Os demais, até o adolescente, assentiram em concordância. Nellie, apertando as mãos no colo e com o olhar fixo na porta, não dava muita atenção à conversa, agradecendo que o foco tinha se movido para longe dela e do andarilho que resgatou.

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Lista de capítulos

30 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 Um Rato
  2. Capítulo 2Capítulo 2 Um Mendigo
  3. Capítulo 3Capítulo 3 Um Andarilho

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