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Capítulo 2 🏝 A ILHA DO SILÊNCIO
O cárcere onde se testa o aço
FERNANDO MARAZANO 🔱
A noite era densa quando pousamos. O helicóptero cortou o ar como uma lâmina e, por um momento, eu senti o mundo se reduzir ao som do motor e ao peso daquela caixa humana nos meus braços. Valentina no saco, amarrada, imóvel e, por isso mesmo, ainda perigosa. A dor no ombro dela não me dava conforto; dava informação. Ela lutara. Sobrevivera. Isso significava que a ameaça continuava viva. E ameaças vivas exigem soluções definitivas.
Não falo de justiça sentimental. Falo de causa e efeito. Ela matou meus homens. Ela tentou destruir parte do que construí. Quem tenta me destruir precisa pagar e pagar de forma que a lembrança do preço sirva como aviso eterno.
Pisei na ilha e senti o cheiro úmido do mar; era quase irônico como a água que limpa também acaba por obscurecer pegadas. Conduzi-a pelo caminho de pedras até a casa antiga, um pesado monumento de pedra que parecia ter sido erguido para durar muito além de nós dois. A escuridão ao redor nos devolvia em ecos abafados. Ninguém chegaria aqui por acaso.
Quando a empurrei para dentro do quarto e ela foi forçada a sentar naquela cadeira dura, percebi que cada um de seus músculos tremiam de dor, de adrenalina, ou de raiva. Raiva é combustível. Raiva é previsível. Previsibilidade é perigosa. Eu precisava entender o que havia por trás da máscara que ela usara. Quem era Valentina além do nome? Quanto controle ela de fato exercia sobre a Bratva? Quais eram suas redes, seus contatos, suas fraquezas?
Coloquei sobre a cama uma caixa de primeiros socorros que, na verdade, servia para organizar o que eu precisaria dela: os cortes, os ossos quebrados, qualquer sinal de veneno mas também os fios de cabelo que contassem onde ela estivera, os sedimentos que falassem de viagens, as pequenas coisas que os tolos perdem quando estão ocupados demais com ódio.
Desamarrei-a com mãos rápidas e firmes. Ela tentou reagir chute, punho, desespero tudo com a mesma brutalidade retardada de alguém que pensa: se morrer tentando, ao menos morre lutando. Eu não me deixei mover. Não por crueldade gratuita. Por controle. Estabilidade. Acha que controlar outra pessoa é prazer? Não: é a única forma de garantir que as contas sejam fechadas do jeito certo.
Quando a touca saiu, ela me fitou. Olhos claros, rosto marcado pelo combate. Não era surpresa. A beleza nem sempre protege; muitas vezes é armadilha. Fiquei observando-a como quem inspeciona um mecanismo: onde se quebra, onde se mantém, que peças podem ser removidas sem que a máquina inteira deixe de funcionar.
Deixei a porta aberta para o banheiro. Não por clemência. Por logística. Ela precisava de água, precisava limpar o sangue que poderia atrair insetos, rastros, murmúrios. Racionalizei: um prisioneiro limpo é mais fácil de interrogar. Mas, antes de ir até a cama pegar o que precisava, resolvi testar. Testar arrojo, testar espírito de luta. O comportamento vale mais que a confissão.
Quando ela voltou do chuveiro, o vapor ainda subia. A água só tinha apagado a sujeira; a marca no ombro pulsava. Eu me aproximei e ela tentou o golpe previsível, primário. Fui mais rápido. Bloqueei, guiei, permiti que a raiva dela gastasse energia sem efeito. Quando a empurrei, torci os pulsos com força suficiente para lembrar, com menos força para machucar de verdade. Fiz isso para mostrar que eu poderia. Mostrar é às vezes o suficiente.
Com os braços contidos sobre a cabeça dela, a respiração em seu rosto, eu senti o foco da raiva feminina tão puro quanto sangue. Ela falou com ódio bruto palavras afiadas que não buscavam ferir tanto quanto marcar a pele.
- Vou te matar.
disse ela. Uma frase longa demais para quem não pode cumprir ali e então. Eu sorri por dentro. Palavras são gestos. Gestos podem ser usados para manipular. Eu era imune ao espetáculo; queria conteúdo. Queria a estrutura que sustentava aquele ódio.
Sai do quarto e tranquei a porta com o clique que anuncia determinação. Do lado de fora, organizei a logística: segurança rotineira, patrulha no perímetro, transmissões cortadas. Não podemos ter visitas indesejadas nem da polícia, nem de curiosos, nem de bandidos. Tudo precisa parecer perfeitamente natural. A normalidade é uma tela onde se desenha o espetáculo da violência.
Voltei ao quarto apenas para observar. Observação é método. Vi a sombra dela projetada na madeira do piso. Vi a mudança de expressão quando percebeu que o tempo corria contra ela. Valentina não era mera fogueira; era um incêndio de precisão. Organizada. Racional. Com a disciplina de quem aprendeu cedo que a vida é sempre uma conta a pagar. E assim, em silêncio, decidi que a lição de hoje deveria ser mais do que um ferimento.
Não a deixei desarmada para sempre. Não sou sádico por vocação sou cirúrgico. Há prazer nisso? Não. Há eficiência. Tirei a touca novamente, conferi marcações, sujeira, indícios elementos que apareceriam como prova de barbaridade dos Marazano se contassem outra história. Precisávamos que a narrativa fosse nossa, não da propaganda inimiga.
Na mesa, escrevi o interrogatório em tópicos: quem a treinou; quem a financiou; quantos homens tinham sob seu comando; a rota de acesso ao arsenal; o nome do contato que fornecera a informação dos Marazano; por fim, o que soubesse sobre outros alvos porque eu desconfiava que o ataque não fora libertinagem cega. Ataques são sempre cartas de baralho estrategicamente jogadas.
Quando a convoquei para responder, ela respondeu com silêncio. Não por falta de palavras, mas por princípio. Princípio é a armadura da tola que não percebe quando a armadura é também uma prisão. Usei o tempo. Deixei as perguntas pairarem como facas. Em dois dias, com cabeça limpa e braços sem febre, a verdade sairia. Ou eu faria com que saísse.
Mas a guerra não é apenas respostas. É posicionamento. Enquanto ela limpa suas feridas, eu crio mapas, mando chamadas, agendo retratos mortais: patrulhas onde os Marazano menos esperam, infiltrações em segurança do inimigo, pequenos ataques que desarticulam a confiança deles. A guerra se ganha quebrando rotinas, e eu fazia disso uma arte.
Antes de deixá-la de novo no quarto, encarei-a e disse apenas uma coisa, sem dó:
- Você matou nossos homens. Isso não fica impune. Não há perdão no que faço. Só há soluções.
Meu tom foi simples, sem rodeios, sem pretensos jogos de sedução porque não quero isso. Quero dominação. Quero controle. Quero que ela compreenda, no corpo e na mente, que a narrativa dela termina onde eu decidir.
Ela fitou-me, os olhos como brasas que ainda poderiam incendiar.
- Que fofo! O que esperava? Invadir meu galpão, roubar nossas armas e sair impune?
- Ai! A gatinha selvagem fala! E quem te falou que queríamos suas armas?
Ela me encarou e sorriu, vi surpresa.
- Eu fui buscar você. Só não esperava perder tantos homens no processo.
Lista de capítulos
115 capítulos no total
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