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Capítulo 3 🏠 A CASA DO INIMIGO

Onde o controle muda de forma

VALENTINA CASTIÊ BRATVA 👠

O sol mal havia nascido e o quarto ainda cheirava a maresia e ferro. Depois do banho, enrolei a toalha na cintura e fui até o guarda-roupa, uma caixa de madeira que mais rangia do que guardava. Abri as portas e só encontrei uma camisa masculina grande, grossa, com o cheiro dele: madeira, fumaça e arrogância. Era como se Fernando tivesse passado por ali e deixado um pedaço de si no tecido.

Revirei os olhos. Óbvio que o desgraçado não deixaria nada decente. Vesti a camisa por necessidade, não por submissão. Usei a lâmina da caixa de primeiros socorros para rasgar as mangas até os ombros, transformando o pano em algo mais prático. Cortei uma tira de uma das mangas e improvisei um curativo no ombro. Cada movimento doeu; a dor era um lembrete vivo: eu tinha sobrevivido. O espelho devolveu a imagem de uma mulher ferida, inteira em sua ferocidade. A camisa grande não me fazia vulnerável só, temporariamente, disfarçada.

Sentei na beira da cama. A madeira rangeu sob meu peso e o som das ondas atravessava a janela como uma batida de relógio: o tempo corria a favor de quem se movia pensando. Isolada, eu não tinha aliados; tinha apenas o mapa mental do que podia e devia fazer. Planejar havia sido sempre o meu talento mais letal. Ele podia me manter amarrada; não podia controlar meu raciocínio.

A porta rangeu e ele entrou com o moletom molhado. Trazia uma bandeja simples, o riso curto nos lábios como se toda a noite sangrenta fosse um detalhe que não tocava sua rotina. A naturalidade com que andava sempre me surpreendia ou talvez fosse a arma mais afiada dele.

- Desculpa, gatinha selvagem, disse, colocando a bandeja sobre a cama. Não é a casa mais luxuosa, então não espere café de hotel cinco estrelas.

- Não tem coragem de me enfrentar, então vai tentar me envenenar? respondi, direto. Tão previsível, Marazano.

Ele deu uma risada curta, sem calor.

- Se eu quisesse te matar, teria feito ontem. Acredite, seria mais rápido.

Seus olhos varreram o curativo no meu ombro e a camisa que eu adaptara.

- Rasgou minha camisa, comentou, com ar de curiosidade. Tudo bem, tenho outras.

- Posso tirar também, se preferir, retruquei, junto ao sarcasmo.

Abri os botões devagar. Um a um, o som do tecido soltando preencheu o quarto. Quando o último botão veio, deixei o pano cair dos ombros e permaneci nua por baixo. Não era submissão; era um desafio calculado. Queria ver até onde a máscara dele tremia. Queria medir o espaço entre o que ele dizia e o que ele fazia.

Fernando não se moveu de imediato. Depois ergueu-se, com lentidão fria, e pegou um morango da bandeja. Mordeu, o suco vermelho entre os dedos, e se inclinou, colocando o restante da fruta nos meus lábios com um gesto estudado.

- Não me provoca, gatinha, murmurou, os olhos implacáveis. Ou eu posso acabar gostando mais do que devia.

Ri baixo, surpresa por me permitir rir.

- Me parece que quem vai gostar é só você, Marazano.

Ele puxou a camisa de volta sobre os meus ombros e começou a abotoar. Os dedos dele eram precisos; o gesto, por mais que parecesse íntimo, tinha o ar de uma operação metódica. Não era carinho, era controle. Passou os dedos junto ao meu pescoço, firme e sem pressa, e então afastou-se, observando.

- Vista-se, Bratva. A partir de agora, você vai aprender o significado de território inimigo, disse, seco.

- Já aprendi, respondi, cortante. É onde idiotas se sentem seguros.

Ele sorriu, por um segundo quase humano, mas não havia ternura ali.

- Vamos sair daqui, anunciou. Vou te levar para o próximo ponto. Quero uma bebida decente e comida de verdade. E se quiser continuar nua, prometo não reclamar.

- Tá me levando como troféu? perguntei, irônica. Vai me desfilar como prêmio pela sua vitória?

- Fernando, gatinha selvagem, murmurou ele, com uma familiaridade estudada. Meu nome é Fernando. Se vai me odiar, ao menos saiba quem me chama.

Estendi a mão por cálculo, talvez por curiosidade. Olhar de perto o inimigo é a melhor forma de entender suas reações. Saímos do quarto lado a lado. O corredor tinha o cheiro úmido da madeira e do mar; o ar era denso com o que não foi dito.

Ao invés de descrever fachada alguma, concentrei-me nos detalhes que entregam mapas: a largura do corredor, o posicionamento das janelas, os trilhos que ouviam passos do andar de cima. Cada objeto no caminho dizia quem morava ali: garrafas antigas, um sofá com a curvatura de quem passa horas pensando, um quadro mal alinhado. Essas pistas alimentavam minha estratégia. O inimigo sempre revela seu padrão quando não percebe ser observado.

Ele parou perto de uma estante e pegou duas garrafas, abrindo uma com calma. Serviu os dois copos, ofereceu-me um e assentiu, como quem convoca para uma mesa de estudo e não para um encontro cordial.

- Não gosto de brindes, disse, entregando-me o copo. Mas essa é uma ocasião especial.

- Capturar uma mulher ferida e trancá-la numa ilha é o que você chama de especial? perguntei, a garganta ainda seca do combate.

- Não. Chamo de vitória, respondeu, curto.

Bebi de modo contido. O álcool queimou; acendeu uma clareza fria. Enquanto eu bebia, notei como ele observava. Não era interesse corporal era pesquisa. Cada movimento meu, cada gesto pequeno, ele anotava mentalmente. E eu também o estudava, registrando uma porção de dados que seria útil. Quem estuda um homem como Fernando não procura afetos; procura fendas, rotas, pontos de pressão.

- Você acha que me conhece, Marazano? perguntei, pousando o copo. Queria provocar uma falha.

- Fernando, corrigiu, com um sorriso nominal. E não acho, Valentina. Eu vou conhecer. Tudo.

- E quando souber o que você esconde, o inevitável vai parecer misericórdia, disse ele, insensível, como se pronunciasse uma sentença.

Ele indicou a saída.

- Vamos, disse, com simplicidade. Preciso de comida descente e uma bebida boa. Aqui não tem isso. E lá...

Ele se inclinou e sussurrou:

- Tem outras camisas e de outras cores.

Isso é tudo que está disponível no momento.

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Lista de capítulos

115 capítulos no total

  1. Capítulo 1Capítulo 1 ⚔️A BATALHA NO GALPÃO
  2. Capítulo 2Capítulo 2 🏝 A ILHA DO SILÊNCIO
  3. Capítulo 3Capítulo 3 🏠 A CASA DO INIMIGO

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