/0/5182/coverbig.jpg)
/0/19770/coverbig.jpg)
Capítulo 1 O Homem Que Não Deveria Existir
A cidade brilhava como uma mentira erguida sobre pilares de corrupção, dinheiro e sangue. Cecília Castellani conhecia aquele jogo melhor do que a maioria. Filha do governador Augusto Castellani, jornalista investigativa, noiva do senador Adrian Beaumont e considerada a verdadeira "princesa da política". Ela quase riu da própria ironia. Se as pessoas soubessem... Se fizessem ideia de quantos monstros usavam ternos caros e sorrisos perfeitos, de quantas mãos eram apertadas com firmeza naquelas festas enquanto cadáveres eram enterrados bem longe das câmeras. A música elegante ecoava pelo salão, embalando um mar de champanhe, vestidos de grife, discursos vazios e pura hipocrisia. Da varanda, segurando uma taça, Cecília observava tudo. O vestido preto abraçava suas curvas com perfeição e o cabelo loiro caía solto sobre os ombros bronzeados. Para quem olhasse de fora, ela parecia apenas calma. Mas estava trabalhando. Como sempre. Escondido dentro da bolsa havia um gravador; no bolso interno do vestido, um pendrive; e no celular, fotos suficientes para destruir pelo menos três carreiras políticas. — Procurando alguma coisa interessante? — A voz masculina surgiu atrás dela. Era seu noivo. O sorriso de Cecília apareceu automaticamente, a mesma máscara simpática e ensaiada que costumava reservar para as câmeras. — Apenas observando. — Você deveria sorrir mais. Ela virou-se lentamente para encará-lo. — E você deveria parar de me dizer o que fazer. Por um instante, algo sombrio atravessou os olhos dele, desaparecendo tão rápido quanto surgiu. Adrian aproximou-se. Ele era inegavelmente bonito, o rosto perfeito para os fotógrafos, mas assumia uma aura assustadora quando estavam sozinhos. — Estamos sendo observados — ele murmurou. — Então sorria você. A mandíbula do senador travou. Cecília adorava provocá-lo, mas o jogo perdeu a graça quando Adrian segurou seu braço com força excessiva. — Você esquece quem eu sou. — Não — ela rebateu, puxando o braço de volta com firmeza. — Eu me lembro exatamente. Adrian sorriu novamente, mas seus olhos permaneceram frios como gelo. — Tenha cuidado, Cecília. Ela o observou se afastar, um calafrio incômodo percorrendo sua espinha. Algo estava errado. Muito errado. E seu instinto investigativo raramente falhava. De repente, o celular vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem anônima contendo apenas uma localização: uma sala no quarto andar. O coração de Cecília acelerou. Era aquilo. A reunião clandestina que ela tentava rastrear havia semanas. Respirando fundo para disfarçar a ansiedade, atravessou o salão sem chamar atenção e escapou pelas escadas de serviço. O quarto andar era dominado por corredores vazios, portas fechadas e um silêncio opressivo. Uma das portas estava entreaberta. Cecília aproximou-se sorrateiramente, captando vozes de homens discutindo lá dentro, e ligou seu gravador. — A transferência será feita amanhã. — Moretti não vai interferir. Ouvir aquele nome fez um arrepio percorrer sua nuca. Moretti era o rei não oficial da cidade, o homem que dominava metade do submundo e o criminoso intocável que ela perseguia incansavelmente há anos. Ela nunca o tinha encontrado pessoalmente, mas sabia exatamente quem ele era. Ou, pelo menos, acreditava saber. Ela se encostou mais na parede, aguçando a audição. — O governador jamais descobrirá — um deles garantiu. — E a filha dele? — Não importa. Cecília congelou. A filha dele. Estavam falando dela. O pânico ameaçou dominá-la quando o som de passos ressoou pelo corredor, vindo em sua direção. Ela tentou recuar rapidamente, mas era tarde demais. A porta se abriu de supetão e um dos capangas a encarou, arregalando os olhos. — Quem diabos é você? Sem pensar duas vezes, ela correu. O corredor explodiu em gritos e o som pesado de passos a perseguiu. Eram homens, muitos deles. Cecília disparou escada abaixo, praguejando mentalmente contra os saltos altos que dificultavam sua fuga. — Peguem-na! — alguém rugiu. Com o coração martelando nos ouvidos, ela desceu do terceiro para o segundo andar, até finalmente alcançar o primeiro. Empurrou uma porta lateral com força e viu-se novamente no meio do salão principal. Instintivamente, seus perseguidores recuaram, misturando-se entre os convidados; eram espertos o suficiente para não causar uma cena pública. Ela também precisava agir naturalmente. Continuou andando, forçando a respiração a se estabilizar, tentando parecer apenas mais uma socialite caminhando pelo evento. Foi então que o inferno começou. Um estampido seco rasgou a música. Depois outro, e mais outro. Tiros. Em segundos, o salão de gala mergulhou no caos absoluto. Taças e vidraças explodiram, mulheres gritaram em desespero, homens correram às cegas e os seguranças sacaram suas armas. Dominada pelo pânico coletivo, Cecília jogou-se atrás de uma mesa tombada. Mais tiros ecoaram no exato momento em que um gigantesco lustre de cristal despencou do teto, fazendo o chão de mármore tremer sob o impacto. No meio da multidão que corria em todas as direções, ela arriscou erguer a cabeça e viu: havia um atirador posicionado na sacada oposta. E ele não mirava a esmo. A arma estava apontada diretamente para o seu pai, o governador. Ela fez menção de correr na direção dele, mas, de repente, alguém agarrou sua cintura. Uma mão poderosa, firme e implacável a puxou com violência para trás de uma coluna grossa, uma fração de segundo antes que um disparo atravessasse o espaço exato onde ela estava. O mármore da pilastra explodiu, e pequenos fragmentos de pedra arranharam seu rosto. Cecília arfou, atordoada, e olhou para cima. Diretamente para o rosto do homem que acabara de salvar sua vida. O mundo ao redor pareceu desacelerar. Ele tinha olhos cinzentos e tempestuosos, vestia um terno preto impecável e exalava uma presença tão perigosa quanto assustadoramente magnética. Cecília sentiu algo estranho e quase impossível tomar conta de si. Era como se já tivesse visto aquele rosto de mandíbula forte antes, como se o conhecesse intimamente, despertando uma parte esquecida de sua própria alma de repente. O homem também pareceu congelar. Ele a observava com uma intensidade crua, parecendo reconhecê-la, como se estivesse de frente para um fantasma. — Você está ferida? — A voz dele soou grave e controlada, mas carregava uma emoção contida nas entrelinhas. Ainda em choque, Cecília balançou a cabeça negativamente. — Quem é você? Os olhos cinzentos escureceram. Por apenas um segundo, ela viu dor, raiva e um alívio inexplicável brilharem ali, tudo misturado numa tempestade silenciosa. Quando ele finalmente disse seu nome, a revelação a atingiu como um soco no estômago, roubando-lhe todo o ar. Lucien Moretti. O mafioso. O criminoso. O homem que preenchia metade do quadro de suas investigações. Mas não era o choque da identidade dele que a deixava sem fôlego; era a sensação absurda e instintiva de que aquele nome significava muito, muito mais para ela. Outro tiro ecoou perto demais. Sem hesitar, Lucien a puxou novamente, protegendo-a com o próprio corpo contra a pilastra. O gesto foi tão automático que pareceu um reflexo enraizado, como se ele tivesse feito aquilo centenas de vezes. Como se protegê-la fosse a coisa mais natural do universo. Quando seus olhares se cruzaram em meio àquela loucura, Cecília sentiu um medo paralisante pela primeira vez em muitos anos. E não era do atentado, nem dos assassinos, nem do caos que engolia o salão. O medo vinha do fato de que algo profundo dentro dela sussurrava uma verdade impossível: ela o conhecia. De algum lugar. De alguma outra vida. De alguma lembrança meticulosamente enterrada. Para confortá-la, Lucien passou o polegar discretamente sobre a mão trêmula da jornalista, e o toque causou um curto-circuito em sua mente. Um flash vívido a atravessou: um lago de águas calmas. Uma tarde ensolarada. Um garoto. Um sorriso. Uma promessa. E então, a imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu. — Quem é você de verdade? — ela sussurrou. Lucien ficou imóvel. Os olhos dele percorreram o rosto dela com uma devoção dolorosa, como se procurassem algo precioso e perdido há incontáveis anos. — Essa é exatamente a pergunta que eu queria fazer para você — ele respondeu. E naquele instante, sob o som de tiros e gritos, sem que nenhum dos dois soubesse, uma guerra começou. Uma guerra com o poder de derrubar governos, destruir impérios e incendiar o próprio inferno.
Lista de capítulos
15 capítulos no total
/0/9014/coverbig.jpg)
/0/2148/coverbig.jpg)
/0/20471/coverbig.jpg)
/0/18791/coverbig.jpg)
/0/19094/coverbig.jpg)
/0/6618/coverbig.jpg)
/0/20193/coverbig.jpg)
/0/19313/coverbig.jpg)
/0/19305/coverbig.jpg)
/0/20309/coverbig.jpg)
/0/19303/coverbig.jpg)