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Capítulo 2 O ALVO
O cheiro de pólvora ainda pairava no ar, misturado ao perfume caro dos convidados, ao medo e ao sangue. Cecília mal conseguia respirar. As sirenes ecoavam do lado de fora do Hotel Imperial, enquanto seguranças corriam, policiais invadiam o salão e paramédicos atendiam os feridos. Mas ela só conseguia olhar para um homem: Lucien Moretti. O criminoso mais procurado da cidade, que deveria estar sendo algemado, e não protegido, respeitado ou obedecido. E, ainda assim, todos pareciam abrir caminho quando ele passava, como se fosse um rei, como se pertencesse àquele lugar mais do que qualquer político presente. Aquilo a irritava profundamente.
— Pode me soltar — a voz dela saiu mais dura do que pretendia.
Lucien baixou os olhos para a mão que ainda envolvia o pulso de Cecília e só então a soltou. O contato desapareceu, mas a sensação permaneceu, ardendo como uma queimadura. Maldição. Por que ela continuava sentindo aquilo?
— Seu pai está seguro — a voz dele era calma, controlada. Irritantemente calma. — Não preciso que você me informe sobre meu pai.
Um canto da boca dele se ergueu, desenhando quase um sorriso. — Claro que não.
Ela odiou aquele olhar. Como se ele soubesse de algo que ela ignorava, observando-a como uma criança tentando resolver um quebra-cabeça simples.
— Você acha isso engraçado? — Não. — Então pare de agir como se soubesse mais do que eu.
A resposta demorou, mas quando veio, atingiu-a como um soco. — Porque eu sei.
O silêncio caiu pesado entre os dois enquanto o coração de Cecília acelerava. — O que isso significa?
Os olhos cinzentos encontraram os seus, profundos, perigosos e familiares. Droga, por que tão familiares?
— Significa que você está em perigo — Lucien respondeu. — Eu sou jornalista. Estou sempre em perigo. — Não desse jeito. — A tensão cresceu e algo na voz dele mudou, como se estivesse falando sério. Como se estivesse assustado. E aquilo era impossível, pois homens como Lucien Moretti não sentiam medo, especialmente por outras pessoas.
A conversa foi interrompida quando um homem alto, de barba curta e terno escuro — claramente um segurança —, aproximou-se rapidamente.
— Chefe. Lucien virou-se imediatamente. — Fale. — Encontramos o atirador. Morto.
Cecília congelou. — Morto?
O segurança assentiu. — Dois tiros na cabeça. Execução.
O salão pareceu ficar ainda mais frio.
— Quem fez isso? — perguntou Lucien. — Ainda não sabemos, mas alguém limpou a cena.
Lucien praguejou baixo. Sua expressão tornou-se sombria, perigosa, assassina. Pela primeira vez naquela noite, Cecília viu o verdadeiro homem por trás do terno elegante: o predador, o rei do submundo. E aquilo deveria assustá-la. Mas não assustava. O que a aterrorizava era o fato de que uma parte dela se sentia segura perto dele. Segura perto de um mafioso. Aquilo não fazia sentido nenhum.
— Eu preciso ir. Lucien a interceptou de imediato. — Não.
A resposta saiu rápida e dura demais. Cecília arqueou uma sobrancelha. — Não? — Você não vai a lugar nenhum sozinha. — Desde quando você manda em mim?
A mandíbula dele travou. Por apenas um segundo, algo atravessou seus olhos. Uma dor profunda e antiga. — Desde que alguém tentou matar você.
Ela abriu a boca para retrucar, mas fechou novamente. O problema era que ele tinha razão, e ela odiava isso.
Trinta minutos depois, o governador já havia sido levado para um local seguro. A imprensa cercava o hotel e helicópteros sobrevoavam a região; a cidade inteira já falava do atentado. Cecília estava prestes a entrar em seu carro quando percebeu algo estranho. Muito estranho. Seu motorista, Roberto, não estava ali, e ele jamais desapareceria naquele tipo de situação. Jamais.
Seu estômago afundou. — Onde está Roberto?
Ninguém respondeu. Ela olhou novamente para o carro parado, completamente vazio, e uma sensação horrível percorreu sua espinha. Puro instinto. Foi então que ela viu uma luz piscando sob o veículo. Pequena, vermelha, ritmada. Seu sangue congelou. Uma bomba.
— ABAIXEM-SE!
A voz de Lucien cortou a noite, e tudo aconteceu rápido demais. Braços fortes envolveram sua cintura, fazendo o mundo girar logo antes da explosão. O som foi ensurdecedor. O carro foi lançado pelos ares enquanto chamas iluminavam a rua em meio a vidros explodindo e pessoas gritando. O calor atingiu o rosto de Cecília, que sentiu o corpo bater violentamente contra o chão. Mas não sentiu dor, porque Lucien estava sobre ela. Protegendo-a mais uma vez. Seu corpo absorveu o impacto, o braço envolvendo a cabeça dela, o peito funcionando como um verdadeiro escudo.
O mundo parecia distante, abafado. Ela ergueu os olhos e encontrou os dele. Por um instante, tudo desapareceu: as sirenes, o fogo, os gritos, a destruição. Restaram apenas aqueles olhos cinzentos. Intensos. Assustados. Mas não por si mesmo, e sim por ela.
E então aconteceu. Outro flash a atingiu, mais forte desta vez. Uma praia, o mar, o sol. Um garoto correndo, com os mesmos olhos cinzentos. Uma risada e a sua própria voz infantil ecoando: *"Promete que nunca vai me esquecer?"*
A lembrança desapareceu como fumaça, e Cecília arfou, buscando ar. Lucien percebeu. Ela sabia que ele tinha percebido.
— O que houve? — Eu... — a cabeça dela latejava. — Eu vi alguma coisa.
Ele ficou imóvel, completamente paralisado. — O quê?
Ela não sabia explicar, nem para si mesma. — Você.
A palavra escapou antes que pudesse impedir. O rosto dele empalideceu. Pela primeira vez desde que o conhecera, Lucien Moretti parecia verdadeiramente vulnerável, e aquilo a assustou mais do que a bomba.
Muito mais tarde, Cecília estava sentada em uma sala segura da polícia, mas não escutava uma palavra do que os investigadores diziam. Sua mente permanecia presa em uma única pergunta: quem queria matá-la? Primeiro os tiros, depois a bomba. Aquilo não era coincidência, era uma caçada implacável, e alguém muito poderoso estava por trás daquilo.
De repente, seu celular vibrou. Era uma mensagem anônima, sem número ou identificação. Apenas uma frase que fez seu coração parar de bater:
*"Pergunte ao seu pai o que aconteceu no Lago Ravenna há quinze anos."*
O sangue desapareceu de seu rosto. Quinze anos. Exatamente a época do acidente. Exatamente a época das memórias perdidas. Ela levantou-se com tanta brutalidade que derrubou a cadeira para trás.
— Senhorita Castellani? — chamou um dos policiais. — Preciso sair. — Agora não é seguro. — Eu não perguntei se era.
Ela saiu a passos largos antes que alguém pudesse impedi-la. Precisava encontrar o pai, precisava de respostas urgentes. Precisava entender por que seu passado parecia perseguir Lucien Moretti de forma tão visceral.
Mas, enquanto atravessava o corredor vazio da delegacia, Cecília não percebeu a figura que a observava das sombras. Um homem elegante, de postura impecável, com um sorriso sutil no rosto: Adrian Beaumont, seu noivo.
A tela do celular dele ainda estava acesa, exibindo a mesma mensagem enviada, o mesmo número anônimo e o mesmo texto. E o sorriso que se alargou em seus lábios não tinha absolutamente nada de humano.
— Corra, Cecília — a voz dele saiu num sussurro envenenado. — Corra direto para a verdade. Porque quando descobrir quem você realmente era... vai implorar para ter permanecido esquecida.
Lista de capítulos
15 capítulos no total
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