/0/20072/coverbig.jpg)
/0/19770/coverbig.jpg)
Capítulo 3 LAGO RAVENNA
Cecília não se lembrava de ter saído da delegacia, de ter dirigido ou sequer dos semáforos e das ruas. Tampouco notou a chuva fina que começava a cair sobre a cidade. Tudo o que conseguia ouvir, repetindo-se em sua mente como um disco arranhado, era uma única frase: Pergunte ao seu pai o que aconteceu no Lago Ravenna há quinze anos. Quinze anos. Exatamente a idade das lembranças desaparecidas. Exatamente a idade das perguntas sem respostas, a idade exata do seu vazio. Ela apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Durante anos, aceitara a versão oficial: um trágico acidente de carro, uma criança gravemente ferida, trauma e, por fim, a perda parcial da memória. Fim da história. Mas agora, nada mais parecia fazer sentido. Lucien Moretti, os flashes inexplicáveis, a sensação absurda de conhecê-lo, o atentado no hotel, a bomba sob seu carro e, finalmente, a mensagem. Tudo estava perfeitamente conectado. Ela simplesmente ainda não conseguia enxergar como. A mansão dos Castellani estava cercada por seguranças. Muito mais do que o normal. Refletores varriam os jardins e homens fortemente armados patrulhavam os portões; o atentado havia colocado toda a propriedade em estado de alerta máximo. Mesmo assim, quando Cecília passou pela porta principal, ninguém tentou impedi-la. Os empregados desviavam o olhar, tensos e visivelmente assustados. Ela reconhecia aquele clima pesado, o mesmo silêncio elétrico que antecede uma tempestade. Seu pai estava escondendo alguma coisa, ela podia sentir nos ossos. Subiu as escadas apressadamente, sem sequer tirar os saltos, atravessou o corredor principal ignorando os chamados dos funcionários e escancarou a porta do escritório com violência. Augusto Castellani levantou os olhos dos documentos sobre a mesa. Por um instante, a surpresa atravessou seu rosto, rapidamente substituída por uma profunda preocupação. — Cecília. — O que aconteceu no Lago Ravenna? Um silêncio completo e absoluto engoliu a sala. O sangue desapareceu do rosto do governador num piscar de olhos e, naquele exato momento, ela soube. A mensagem era verdadeira. Seu pai não apenas conhecia aquele nome, mas tinha pavor dele. — Quem falou sobre isso? — ele perguntou. — Responda. — Cecília... — RESPONDA! — A voz dela ecoou pelo escritório amplo. Ela raramente perdia o controle a ponto de gritar, mas estava exausta. Cansada das mentiras, dos segredos e de ser eternamente tratada como uma criança. Augusto levantou-se lentamente. Pela primeira vez em muitos anos, a fachada inabalável ruiu e ele pareceu velho. Muito velho. — Algumas coisas precisam permanecer enterradas. — Então existe alguma coisa. — Sim. — A resposta veio rápida, honesta e dolorosa. — Existe. O coração dela disparou no peito. — Eu estava lá? — Sim. — Lucien Moretti estava lá? Augusto simplesmente fechou os olhos, e aquilo foi resposta suficiente. O ar abandonou os pulmões da jornalista. — Meu Deus... — Cecília... — Quem era ele para mim? O governador permaneceu imóvel, e seu silêncio foi muito pior do que qualquer resposta articulada. — Pai... — Eu não posso. — Não pode ou não quer? — Não posso. — A voz dele falhou. Aquilo a assustou profundamente; Augusto Castellani nunca falhava. Mas agora, parado à sua frente, parecia um homem esmagado pelo peso de quinze anos de culpa. — Você não entende. — Então me faça entender. — Não. — Você está me protegendo? — Estou tentando. Ela soltou uma risada ríspida e amarga. — Engraçado. Porque ultimamente todo mundo parece querer me proteger. Você, a polícia, Lucien Moretti. E ninguém tem a decência de me dizer de quê. Os olhos do governador escureceram de súbito. — Lucien se aproximou de você? Ela ignorou a pergunta, mantendo o foco. — O que aconteceu naquela noite? — Vá embora, Cecília. — Não. — Vá embora. — NÃO! — Ela espalmou as duas mãos com força sobre a mesa de mogno, fazendo os objetos estremecerem. — Eu quase morri hoje. Tentaram me matar duas vezes. Eu mereço respostas! Os olhos de seu pai encheram-se de algo que ela jamais vira neles: pânico. Puro e absoluto pânico. — É exatamente por isso que você precisa parar de procurar. O escritório mergulhou novamente em silêncio. Aquelas palavras soavam absurdas. Quanto mais perigo a rondava, mais ela sentia a necessidade de descobrir a verdade. Ela era jornalista, afinal de contas; era quem era e era o que fazia de melhor. — Eu não vou parar — sentenciou. Augusto abaixou a cabeça, como se no fundo já esperasse por aquilo, como se soubesse, desde o início, que havia perdido aquela batalha. — Então, que Deus nos ajude. Do outro lado da cidade, Lucien observava a fotografia sobre sua mesa. Fazia quinze anos que não via aquela imagem, mas, mesmo assim, reconheceu cada detalhe imediatamente: a praia, o lago, o verão vibrante e os sorrisos escancarados. Ele, Cecília e Noah. Três crianças. Três sobreviventes. Ou pelo menos era o que todos acreditavam. Seu olhar permaneceu fixo na menina da fotografia. Os cabelos dourados bagunçados pelo vento, o sorriso enorme, os pés descalços na areia. Inocente. Viva. Tudo capturado pouco antes de o mundo deles desmoronar. Antes do sangue, da escuridão. Antes de perdê-la. Os dedos dele apertaram as bordas da foto. No verso, havia uma mensagem escrita à mão, num tom de ameaça fantasmagórica: Vocês três deveriam ter morrido naquela noite. Alguém estava brincando com ele. Alguém que conhecia a verdade. Alguém que, sem dúvida, estivera lá. A porta do escritório se abriu, e Matteo entrou. Ele era seu braço direito e o seu amigo mais antigo. — Encontramos o homem que enviou a fotografia? — perguntou Lucien, sem tirar os olhos da imagem. Matteo balançou a cabeça negativamente. — Não. — Isso é impossível. — Eu sei. Matteo ficou em silêncio, o que tornava a situação ainda mais preocupante, pois poucas coisas no mundo eram impossíveis para Lucien Moretti. — E a filha do governador? — Matteo sondou. Lucien demorou alguns segundos para responder. — Continua viva. — Por enquanto. Os olhos de Lucien tornaram-se duros e gelados. — Ela continuará viva. — Você não pode protegê-la para sempre. A frase atingiu um ponto incrivelmente sensível, principalmente porque Matteo tinha razão. Lucien passara os últimos quinze anos a observando de longe, garantindo que estivesse segura e eliminando ameaças sorrateiramente, muito antes que ousassem chegar perto. Mas agora, o inimigo havia atravessado todas as barreiras de segurança. Duas vezes. No mesmo dia. E aquilo significava apenas uma coisa: a verdadeira guerra havia começado. Já passava da meia-noite quando Cecília finalmente deixou o escritório do pai. Não conseguira as respostas que queria, mas obtivera algo ainda pior: confirmações. Lucien fazia, sim, parte de seu passado; o trágico incidente no Lago Ravenna realmente existira; seu pai estava absolutamente aterrorizado; e alguém, de fato, estava tentando matá-la. Ela caminhava pelo corredor principal, imersa em pensamentos, quando ouviu um barulho diferente. Metálico, suave, quase imperceptível. Parou de imediato. Puro instinto. Prendeu a respiração, aguardando no silêncio, e então ouviu novamente. Vinha do andar de baixo. Seu coração acelerou. Os seguranças deveriam estar patrulhando aquela área, mas não havia sombra de ninguém. Estranho. Extremamente estranho. Ela começou a descer as escadas devagar. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O corredor do térreo estava deserto e as luzes permaneciam acesas, fazendo tudo parecer tranquilamente normal. Até que seus olhos captaram o detalhe: a porta dos fundos estava entreaberta. Um arrepio gélido percorreu sua espinha. Cecília aproximou-se na ponta dos pés, escondendo-se nas sombras, e então ouviu uma voz. Não era nenhum dos funcionários da casa, nem um dos seguranças de Augusto. Era um homem desconhecido, falando baixo ao telefone, escondido dentro de sua própria mansão. — Ela está aqui — ele sussurrou. O sangue de Cecília congelou nas veias. — Sim. Sozinha. — Houve uma pausa, enquanto o invasor escutava as instruções do outro lado da linha. Então, ele respondeu: — Entendido. Vamos levá-la esta noite. Cecília parou de respirar. O pânico a invadiu. Havia intrusos dentro da propriedade blindada do governador, e eles estavam ali para sequestrá-la. E, naquele exato instante... o homem começou a virar lentamente na sua direção.
Isso é tudo que está disponível no momento.
Continue lendo para acompanhar a história.
Continuar lendoLista de capítulos
15 capítulos no total
/0/20260/coverbig.jpg)
/0/20391/coverbig.jpg)
/0/9285/coverbig.jpg)
/0/20439/coverbig.jpg)
/0/20219/coverbig.jpg)
/0/20476/coverbig.jpg)
/0/20355/coverbig.jpg)
/0/6618/coverbig.jpg)
/0/20193/coverbig.jpg)
/0/19313/coverbig.jpg)
/0/19305/coverbig.jpg)