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Capítulo 1 Uma Nova Oportunidade
Julia estava em seu simples apartamento. Tinha acabado de chegar do trabalho e se sentia exausta, mas, mesmo assim, foi para a cozinha preparar o bolo favorito de seu namorado, Rick.
Eles estavam juntos havia quase três anos. Julia o amava profundamente e sempre fazia de tudo para agradá-lo. Naquele dia, porém, havia um motivo especial: Rick conseguira uma promoção na empresa, e ela queria preparar uma surpresa para comemorar aquela conquista.
Depois de terminar o bolo, Julia tomou um banho, arrumou-se e seguiu para a casa do namorado.
Assim que chegou, algo chamou sua atenção. Havia um carro estacionado na garagem que ela não reconhecia. Estranhou, mas imaginou que Rick poderia estar recebendo algum amigo ou colega de trabalho.
Como possuía uma chave da casa, abriu a porta e entrou.
O apartamento estava silencioso, mas, ao caminhar pelo corredor, Julia ouviu risadas vindas do quarto de Rick.
Então ouviu a voz dele.
E, junto dela, a voz de uma mulher.
Seu coração começou a bater acelerado.
Julia colocou o bolo sobre a mesa e caminhou lentamente em direção ao quarto. A porta estava entreaberta.
Quando olhou pela fresta, seu mundo desabou.
Rick estava na cama com uma mulher. Os dois estavam nus e demonstravam uma intimidade que não deixava espaço para dúvidas sobre o que havia acabado de acontecer.
Julia sentiu como se alguém tivesse arrancado seu coração do peito.
Ela ficou paralisada por alguns segundos, incapaz de acreditar no que seus próprios olhos estavam vendo.
Quando percebeu, já estava dentro do quarto.
Rick e a mulher se assustaram ao vê-la.
— Julia! O que você está fazendo aqui? — perguntou Rick, puxando rapidamente o lençol para cobrir o próprio corpo.
Ele não conseguia acreditar que aquela idiota havia aparecido justamente naquele momento.
No fundo, Rick já pensava em terminar com Julia havia muito tempo.
— Rick... quem é essa mulher? — perguntou Julia, com a voz trêmula. — É sua empregada? Como ela pode entrar assim no seu quarto sem permissão?
As lágrimas escorriam pelo rosto de Julia sem parar.
Então a mulher soltou uma risada debochada.
Naquele instante, Julia entendeu tudo.
— Rick, por que você fez isso comigo? Por quê? Eu te amo tanto... A única coisa que fiz durante todo esse tempo foi me dedicar a você. E é assim que você retribui? Com uma traição?
Rick se levantou e caminhou até ela. Seu olhar era frio, completamente diferente daquele homem por quem Julia havia se apaixonado.
— Julia, olhe para você. Você realmente achou que eu amaria alguém como você? Não seja ridícula. Eu admito que, no começo, cheguei a sentir alguma coisa por você. Mas não passou de um sentimento passageiro.
Julia sentiu o peito apertar.
— Eu já queria terminar com você há muito tempo. Só esperei você me ajudar a conseguir a promoção na empresa. Agora que não preciso mais de você, acabou. Então saia daqui imediatamente.
Julia ficou olhando para ele, sentindo cada palavra como uma facada.
Depois, voltou os olhos para a mulher que permanecia na cama.
Ela era extremamente bonita, vestia roupas caras e carregava consigo uma aparência elegante que denunciava sua origem privilegiada.
— Então você nunca me amou... — murmurou Julia. — Eu fui apenas usada por você.
Ela respirou fundo e olhou diretamente para a mulher.
— Espero que você não seja a próxima a ser usada.
A mulher sorriu com arrogância.
— Você acha que sou igual a você? Olhe para você e olhe para mim. Você parece uma empregadinha mal paga. Suas roupas parecem ter saído de um bazar. Sua aparência é ridícula. Eu sou rica, querida. E sabe por que ele nunca fará isso comigo? Porque ele me ama de verdade. Eu sou muito melhor do que você.
Julia ficou em silêncio.
Então, para sua própria surpresa, começou a sorrir.
Um sorriso triste, amargo e decepcionado.
Como ela havia sido capaz de desperdiçar três anos de sua vida se dedicando a um homem tão desprezível?
— Rick, você é um maldito. Como pude me apaixonar por alguém tão desprezível quanto você? — disse ela, limpando algumas lágrimas. — Espero que tenha uma vida miserável.
Sem esperar resposta, Julia saiu do quarto.
Ela não queria desabar na frente deles.
Assim que deixou a casa, começou a correr pelas ruas sem rumo.
A dor em seu peito era tão intensa que parecia impossível suportá-la. Ela só queria que tudo aquilo desaparecesse.
Depois de algum tempo, percebeu que estava em uma rua escura e quase deserta.
Julia acelerou o passo.
Tinha a estranha sensação de estar sendo seguida.
— Ei, gracinha! Está perdida? Podemos ajudar você!
Julia ouviu a voz e começou a correr.
Mas não conseguiu ir longe.
Um homem a segurou pela cintura e a puxou para trás.
Quando se virou, viu três homens sorrindo para ela.
— Por favor, me deixem ir! Ou vou chamar a polícia!
Os três caíram na gargalhada.
— Quem você pensa que é, garota? Sabe onde está? Esta é a nossa área. Aqui, quem manda somos nós. Tudo aqui nos pertence. E agora você também nos pertence.
Julia sentiu o sangue gelar.
— Por favor...
Ela tentou escapar, mas foi segurada com força e arrastada pelos homens.
— Não me toque! Eu vou gritar!
Eles riram ainda mais.
— Olha, irmão! Nem começamos e ela já quer gritar.
— Não se preocupe, querida. Você ainda vai gritar muito.
Julia sentiu o desespero tomar conta de seu corpo.
Aquilo só podia ser um pesadelo.
Primeiro, havia sido traída pelo homem que amava. Agora estava diante de três desconhecidos que pretendiam fazer mal a ela.
Mesmo que sua vida tivesse acabado de se transformar em um desastre, ela não queria morrer daquela maneira.
Um dos homens a puxou pelos cabelos e tentou rasgar sua blusa.
Julia sentiu uma repulsa profunda ao perceber que ele tentava tocá-la.
Ela esperou o momento em que ele baixou a guarda e reagiu.
Com todas as forças que possuía, acertou uma joelhada nele e conseguiu se soltar.
Julia correu.
Podia ouvir os passos dos homens atrás dela e os xingamentos que gritavam.
Ela não pensava em mais nada.
Apenas corria.
Precisava escapar.
Precisava sobreviver.
Entretanto, no desespero, não percebeu o caminhão que vinha em sua direção.
Quando olhou, já era tarde demais.
O impacto a lançou para longe.
Seu corpo caiu sobre a calçada como uma boneca sem vida.
Julia não conseguia sentir o próprio corpo.
Havia pessoas ao seu redor. Ela conseguia perceber suas vozes, mas não compreendia o que diziam.
Sua respiração estava cada vez mais fraca.
Aos poucos, sentiu um frio intenso tomar conta de seu corpo.
Sua visão ficou turva.
Ela percebeu que sua vida estava chegando ao fim.
Tantas coisas ainda queria fazer.
Tantos sonhos ainda queria realizar.
Mas tudo parecia estar acabando.
Então Julia deu seu último suspiro.
Tudo ficou escuro.
Completamente escuro.
E, depois, veio o silêncio. — Filha... por favor, acorde.
Uma voz suave chegou até Julia.
— Eu só tenho você, querida. Você já dormiu por tanto tempo... Por favor, acorde. Não nos deixe.
Julia tentou abrir os olhos.
Não conseguiu.
Seu corpo inteiro doía.
Então sentiu alguém segurando sua mão.
Havia calor naquele toque.
Aos poucos, conseguiu abrir os olhos.
Sua visão estava embaçada, mas logo conseguiu distinguir o rosto de uma mulher.
Ela aparentava ter cerca de quarenta anos. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas havia um sorriso de alívio em seu rosto.
Julia não conhecia aquela mulher.
Confusa, olhou ao redor.
O lugar onde estava não parecia em nada com um hospital moderno.
Ela estava deitada em uma cama enorme, coberta por lençóis claros e macios. As cortinas que cercavam a cama eram feitas de um tecido pesado e delicado, ornamentado com bordados dourados.
As paredes eram revestidas por madeira escura e entalhada, decoradas com pinturas de paisagens, flores e brasões que Julia não reconhecia.
Havia uma grande janela próxima à cama, coberta por longas cortinas de veludo. A luz suave do dia atravessava o tecido e iluminava parcialmente o quarto.
Ao lado da cama havia uma pequena mesa de madeira maciça, sobre a qual repousavam uma jarra de porcelana, um copo e algumas flores frescas.
Mais adiante, havia uma penteadeira antiga com um grande espelho ornamentado por detalhes dourados.
Tudo parecia pertencer a outra época.
Não havia televisão.
Não havia aparelhos eletrônicos.
Não havia tomadas ou qualquer objeto que lembrasse a vida moderna que Julia conhecia.
O quarto era luxuoso, mas, ao mesmo tempo, transmitia uma atmosfera antiga e aristocrática.
Julia franziu a testa.
— Onde estou? — murmurou.
A mulher arregalou os olhos.
— Vá chamar o médico imediatamente! — ordenou ela a uma serva que estava próxima à porta. — E avise Sua Graça que Julia acordou. Diga que sua filha finalmente despertou. Ele estava muito preocupado.
Julia ficou ainda mais confusa.
Sua filha?
Pai?
Ela não entendia nada.
Seus pais haviam morrido.
Ela tinha certeza disso.
Então por que aquela mulher dizia ser sua mãe?
Não demorou muito para que um senhor entrasse no quarto carregando uma maleta.
Ele se aproximou da cama e começou a examiná-la.
— Como está se sentindo, minha jovem?
Julia tentou responder, mas, naquele momento, uma dor terrível atravessou sua cabeça.
— Ah!
Ela levou as duas mãos à cabeça.
Imagens começaram a surgir em sua mente.
Uma casa enorme.
Mulheres usando vestidos longos.
Uma garota chorando.
Uma mulher sendo humilhada.
Um homem sentado em um grande salão.
Uma família nobre.
E um nome.
Julia Wang.
Ela começou a respirar rapidamente.
As lembranças não eram dela.
Ou pelo menos não deveriam ser.
— Doutor, o que está acontecendo com ela? — perguntou a mulher, desesperada.
O médico tentou acalmá-la.
— Ela passou muito tempo desacordada. É possível que esteja confusa e tenha algumas alterações momentâneas de memória. Dê-lhe tempo para se recuperar.
Pouco a pouco, Julia começou a compreender as novas lembranças.
Seu nome naquele mundo era Julia Wang.
Ela era filha de um duque chamado Roberto Wang e de uma mulher chamada Ana, uma das concubinas do duque.
Ela tinha quatro irmãs mais velhas e um irmão.
Todos eram filhos legítimos do duque e de sua esposa.
Julia e sua mãe, porém, ocupavam uma posição muito inferior dentro daquela família.
Pelas lembranças que agora invadiam sua mente, Julia percebeu que ela e Ana sofriam constantemente nas mãos da duquesa e de suas filhas.
Depois de algum tempo, o médico deixou o quarto acompanhado por uma das servas.
Julia permaneceu em silêncio, tentando organizar tudo o que havia descoberto.
Ela ainda não compreendia como aquilo era possível.
Ela havia morrido.
E agora estava ali.
Em outro corpo.
Em outro mundo.
Com outra família.
Talvez aquilo fosse uma segunda oportunidade.
Uma segunda vida.
Julia olhou para a mulher que ainda estava ao seu lado.
Seu coração se apertou ao perceber o quanto aquela mulher parecia preocupada com ela.
Então seu estômago roncou.
Julia ficou sem graça.
— Mamãe... estou com muita fome.
Ana arregalou os olhos por um instante.
Depois, um sorriso emocionado apareceu em seu rosto.
— Claro, minha filha. Espere aqui. Vou providenciar alguma coisa para você comer.
Ana saiu rapidamente do quarto.
Julia permaneceu alguns segundos olhando para a porta.
Então se levantou devagar.
Suas pernas ainda estavam fracas, mas ela conseguiu caminhar até a penteadeira.
Parou diante do grande espelho.
E congelou.
A mulher refletida diante dela não era a Julia que conhecia.
A alma era sua.
As lembranças eram confusas.
Mas aquele rosto...
Era completamente diferente.
Julia levou a mão ao próprio rosto e tocou sua pele, como se precisasse confirmar que aquilo era real.
Ela não sabia exatamente o que havia acontecido.
Não sabia por que havia recebido uma nova vida.
Não sabia que tipo de mundo era aquele.
Mas uma coisa tinha certeza.
Dessa vez, ela não permitiria que ninguém decidisse seu destino.
Não seria usada.
Não seria humilhada.
Não entregaria seu coração a alguém que não merecesse.
Julia observou seu novo reflexo e respirou profundamente.
Talvez a vida tivesse lhe dado uma segunda chance.
E, dessa vez, ela faria de tudo para ter uma vida boa.
Custe o que custar.
Lista de capítulos
6 capítulos no total
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