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Capítulo 2 Se Adaptando Há Nova Vida
Júlia estava em seu quarto havia uma semana. Durante esse tempo, ela não fez outra coisa a não ser analisar a situação em que se encontrava. Ela havia descoberto muita coisa sobre a Júlia daquele tempo. E, falando em tempo, descobriu que estava na época medieval. Sua mãe era uma concubina, nome dado, em sua opinião, a uma amante. O que parecia ser seu pai era muito bom com ela e com sua mãe, já que amava muito Ana e só havia se casado com a Duquesa Beatriz por causa de um arranjo entre os clãs. Ela tinha mais quatro irmãs e um irmão, Valdir Wang. Júlia era a quinta filha do Clã Wang, mas não tinha tanta importância quanto os outros, já que era apenas filha de uma concubina. Suas irmãs a odiavam e ela sempre acabava sendo castigada pelos truques que elas armavam. Ela também descobriu que sua quarta irmã, Ray Wang, havia roubado seu noivo, Miguel Gu, o segundo filho do Clã Gu e filho do marquês. Pelo que havia entendido, a antiga Júlia morreu depois de cair do cavalo e entrar em coma. Mas ainda não conseguia entender como havia ido parar naquele corpo, naquele lugar e naquela família. Uma coisa, porém, era certa: a antiga Júlia não tivera uma vida fácil e havia sido muito maltratada. - Não se preocupe, pequena Júlia. Eu cuidarei de sua mãe e juro que farei todos pagarem pelo que fizeram com você. Eu não posso me vingar do maldito do Rick, mas, como agora sou você, vou me vingar por tudo o que fizeram com você e sua mãe! - murmurou Júlia baixinho, olhando para o próprio reflexo no espelho. Ela caminhou até o guarda-roupa e começou a observar as roupas. Havia vestidos lindos, muito diferentes de tudo o que estava acostumada a usar em sua antiga vida. Enquanto ainda escolhia o que vestir, sua dama de companhia entrou no quarto. - Milady, finalmente a senhora está de pé! Júlia se virou para sua dama, que se chamava Lia. - Bom, eu quero dar um passeio hoje. Você poderia me ajudar a me vestir, por favor? Lia sorriu e correu até o guarda-roupa. Escolheu um vestido para sua senhora e começou a ajudá-la a se vestir. Depois, fez um penteado elegante em seus longos cabelos e aplicou uma maquiagem leve. Ao terminar, Lia ficou admirada. - Milady, está tão linda! Por isso suas irmãs morrem de inveja. Elas não são tão bonitas quanto a senhora! Mesmo com todo aquele luxo, são tão comuns! Júlia sorriu. Realmente, a antiga Júlia era linda. Ela tinha um corpo delicado, olhos azuis e cabelos longos e platinados que caíam suavemente pelas costas. - Lia, onde está a mamãe? Queria vê-la antes de sair. Quando Lia a ouviu, deu um pequeno sorriso. - Sua Graça está com sua mãe. Júlia não disse mais nada. Apenas saiu com sua dama para dar um passeio. Quanto mais caminhava, mais impressionada ficava. Realmente estava em uma época completamente diferente. Tudo era diferente. O sol estava forte e o calor era intenso. Não havia carros, prédios modernos, postes de iluminação ou qualquer uma das comodidades às quais Júlia estava acostumada. As ruas eram estreitas e feitas de pedras irregulares. Algumas partes eram de terra batida, formando uma mistura de poeira e lama dependendo do clima. As construções eram feitas principalmente de pedra, madeira e tijolos, com fachadas simples ou decoradas de acordo com a condição financeira de seus proprietários. As casas mais humildes ficavam próximas umas das outras, com pequenas janelas de madeira e portas estreitas. Algumas tinham vasos de flores nas janelas, enquanto outras exibiam roupas penduradas para secar. Nas ruas, comerciantes montavam pequenas barracas onde vendiam frutas, verduras, carnes, pães, tecidos, ervas e diversos objetos feitos artesanalmente. O cheiro de pão recém-assado misturava-se ao aroma das ervas, das especiarias e das carnes assadas. Ao mesmo tempo, havia odores desagradáveis vindos de algumas partes das ruas, já que a higiene naquela época estava muito longe dos padrões aos quais Júlia estava acostumada. Pessoas caminhavam de um lado para o outro. Havia camponeses carregando cestos, comerciantes anunciando seus produtos, crianças correndo pelas ruas e nobres passando em carruagens puxadas por cavalos. Cavalos e carroças eram o principal meio de transporte, e o som dos cascos ecoava constantemente entre as construções. Mais adiante, a paisagem mudava. As ruas próximas ao centro da cidade eram mais movimentadas e bem cuidadas. As lojas tinham fachadas maiores e mais bonitas, algumas decoradas com placas de madeira indicando seus produtos. Havia também pequenas tavernas, hospedarias e lojas de tecidos finos. A cidade parecia dividida entre aqueles que tinham dinheiro e poder e aqueles que precisavam lutar diariamente para sobreviver. Júlia observava tudo com curiosidade. Era como ter atravessado as páginas de um livro e acordado dentro de outro mundo. - Milady, veja! É o Senhor Miguel, e parece que ele está com sua quarta irmã! Lia ficou imediatamente preocupada. - Milady, podemos voltar, se quiser. Sei que ficou muito abalada com o fim do noivado de vocês. Júlia olhou para onde Lia apontava. Os dois caminhavam na direção delas. Ray estava usando um vestido azul-claro. Tinha uma aparência bastante atraente, cabelos negros, pele clara e olhos verdes. Ela caminhava de braços dados com Miguel, que também era um homem muito bonito. - Irmãzinha, vejo que você já se recuperou totalmente! Você precisa ter mais cuidado quando andar a cavalo da próxima vez! - falou Ray, olhando para a irmã com um sorriso nos lábios. Miguel, porém, estava com os olhos fixos em Júlia. - Pode deixar que terei cuidado, irmã. Bom, agora vou indo. Tchau! Quando Miguel ouviu Júlia falar e percebeu que ela sequer havia olhado para ele, ficou surpreso. Aquilo não era normal. Sempre que Júlia o via, tentava reconquistá-lo. Ela havia chegado ao ponto de propor ser sua concubina. - Irmã, não seja assim. Até parece que você está fugindo do Miguel! Você precisa superar isso. Nós não tivemos culpa. Apenas nos apaixonamos! - falou Ray, apoiando a cabeça no ombro de Miguel. Júlia parou e olhou para os dois. - Irmã, você está muito enganada. Eu já superei isso há muito tempo. E tenho que agradecer muito a você, porque me fez um grande favor. Livrou-me de um idiota. E vocês dois realmente se merecem, porque são dois lixos! Quando Ray e Miguel ouviram aquilo, seus semblantes escureceram imediatamente. - Como você se atreve a falar comigo dessa maneira?! Você não passa de uma filha de concubina e nunca mereceu ser minha noiva! Se você se atrever a ofender minha noiva novamente, mandarei castigá-la por isso! Quando Júlia ouviu aquilo, não pôde deixar de sorrir. Ela o encarou diretamente nos olhos. - Então mande me castigar, seu bunda-mole! E, se você pensa que pode me ofender por eu ser filha de uma concubina, está muito enganado, porque tenho muito orgulho da minha mãe! E, se fosse você, na próxima vez que me visse, não dirigiria a palavra a mim, porque você é um lixo junto com sua noiva lixo! Agora saia da minha frente, porque tenho mais o que fazer! Júlia passou por Miguel, que continuava olhando para ela. Sua irmã Ray não conseguia acreditar na maneira como ela estava falando. Normalmente, Júlia teria chorado. Mas aquela Júlia era diferente. Ela saiu acompanhada de Lia, sem olhar para trás. Não muito longe dali, uma figura havia ouvido toda a conversa. Ele observou Júlia enquanto ela se afastava com Lia. - Quem é aquela mulher? - perguntou a figura a um de seus servos. O homem olhou na direção para onde seu senhor estava olhando. Quando viu Júlia, levantou uma sobrancelha. - Alteza, ela é a quinta filha do Duque Roberto Wang com sua concubina Ana. Era noiva do segundo filho do marquês, mas, alguns meses atrás, ele a trocou por sua irmã, Ray Wang, que é a quarta filha do Duque e da Duquesa Wang. Há três semanas, ela caiu de cavalo. Todos pensavam que ela iria morrer, mas, há uma semana, ela acordou. O servo fez uma pequena pausa. - Mas por que Vossa Alteza quer saber sobre a Senhorita Júlia? A figura que observava Júlia era o príncipe Thomas Gu, irmão mais novo do Rei Otávio Gu, do Reino de Naliva. Thomas era viúvo. Sua esposa havia adoecido e, mesmo com todos os esforços dos médicos reais, acabou morrendo três anos atrás. Depois disso, Thomas se fechou completamente e passou a viver mais isolado. Mesmo seu irmão querendo que ele se casasse novamente, Thomas sempre rejeitava as possíveis noivas que lhe eram apresentadas. - Interessante. Ron, você pode voltar. Irei dar uma volta. Quando seu servo ouviu o príncipe Thomas, olhou para ele preocupado. - Alteza, é muito perigoso andar por aí sozinho! Thomas olhou para Ron com um sorriso no rosto. - Ron, você esqueceu quem eu sou? Agora volte para a mansão. Ordenou Thomas antes de sair discretamente. Enquanto isso, Júlia continuava andando pelas ruas com sua dama, Lia, que estava com uma expressão preocupada. - Por que Milady falou daquela maneira com sua irmã? Isso só fará com que ela fique ainda mais irritada com a senhora! Aposto que ela contará tudo para a Duquesa, que vai castigá-la mais uma vez! E Milady sabe como elas podem ser cruéis com a senhora e com sua mãe! Quando Júlia ouviu Lia, parou e a olhou friamente. - Eu não vou mais viver com medo, deixando aquelas bruxas fazerem o que quiserem comigo ou com minha mãe. Tudo o que elas fizerem comigo, farei elas pagarem o preço! Elas que se fodam! Quando Lia ouviu sua senhora, ficou com os olhos arregalados. - Oh, céus! Milady ficou louca de vez! Isso deve ter sido por causa da queda do cavalo! Milady, que linguagem é essa? Isso não é coisa que uma dama fale! Se alguém a ouvir, pensará que Milady foi possuída por algum espírito maligno! Júlia olhou para Lia. Ela havia esquecido que aquela era uma época diferente e que as mulheres precisavam ser delicadas e submissas aos homens. - Lia, ninguém está ouvindo. E não estou possuída. Só cansei de ser tratada como se não fosse nada. Então, a partir de hoje, esta é a nova Júlia! - falou Júlia, irritada. - Milady, não seja assim, por favor! Dessa maneira, ninguém irá querer se casar com a senhora! Quando Júlia ouviu aquilo, olhou friamente para Lia. - E quem disse que quero me casar, hein? Você acha mesmo que quero casar e ser submissa como essas mulheres patéticas? Prefiro morrer solteira! O príncipe Thomas, que ainda estava por perto e havia escutado aquelas palavras, ficou surpreso. A quinta filha do Clã Wang era muito mais interessante do que ele esperava. E a maneira como ela falava... Nem todo homem tinha coragem de falar tantos palavrões como ela. Thomas observou Júlia se afastar pelas ruas movimentadas da cidade. Pela primeira vez em muitos anos, alguma coisa havia despertado sua curiosidade.
Lista de capítulos
6 capítulos no total
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